Entrevista com Marcius Galan

É com imenso prazer que entrevistei o artista Marcius Galan na ocasião de sua exposição na White Cube Bermondsey em Londres em 2013. Mágica, enigmática, são algumas palavras que surgem em minha cabeça para descrever obras que estão no limiar do metafísico. A maneira em que o artista consegue trazer para a superfície códigos escondidos em nossa mente, mas que fazem parte da linguagem que utilizamos para ler e compreender o mundo ao nosso redor. Os diferentes níveis de relação entre o interior e o exterior são parte essencial do trabalho de Marcius. Minimalista, suas formas abstratas contam sempre com o acabamento perfeito característico das obras do artista.

O que lhe inspira na arte e na vida?

Meu trabalho absorve muito do que eu encontro no meu dia a dia. Minha relação com a arquitetura, com o espaço, com as coisas mais simples às mais complicadas, como por exemplo tentar resolver problemas burocráticos. Todas essas coisas entram no meu trabalho de diferentes maneiras. Mas em geral acredito que meu trabalho vai muito na direção da nossa relação com a funcionalidade e a precisão, e com a idéia de representação. Essas três coisas podem parecer diferentes mas são maneiras de questionar como nos relacionamos com a funcionalidade, como tentamos representar as coisas com precisão e como a Ciência entra como intermediária nessa relação do homem com o mundo e como a experiência às vezes fica muito longe da Ciência e da representação. Às vezes nas coisas mais simples, como tentar entender como podemos nos organizar na sociedade. Acredito que as relações humanas são dependentes desta malha que limita  o quê se pode e o quê não se pode fazer.

Sim, essa malha existe em muitos níveis. Não posso deixar de imaginar como opera a sua mente. Eu imagino que veja o mundo como sistemas. Depois que comecei a estudar seu trabalho me veio uma visão e o mundo se revelou como toda uma dinâmica sistêmica. Gostei muito do seu trabalho “Abstrações Burocráticas”, poderia falar um pouco sobre ele?

É um trabalho de 2004. Começou quando estava expondo em uma galeria comercial em São Paulo e era minha primeira exposição individual. A origem do trabalho foram as planilhas que e referem a idéia de mercado. Ainda não sei o que esperar dessa relação. Então pensei em como nos associamos à abstração e às construções geométricas quando as informações são retiradas do sistema, ficando apenas a estrutura da planilha que se torna completamente abstrata. O titulo to trabalho carrega um tom irônico se pensar na tradição do abstracionismo, vindo de uma America pós-guerra, onde tudo tinha um sentido sublime de tentar encontrar a essência da arte. Faz você pensar na relação dessas formas de ambas maneiras e que você está envolto nessa abstração cotidiana o tempo todo.

Outra coisa que eu penso dessas formas na arquitetura assim como nos papéis burocráticos é que são caminhos que podem te levar a nada. Então a burocracia é uma forma de tentar organizar mas que pode muitas vezes atrapalhar e levar a atitudes ilegais para desviar delas.

Bureaucratic Abstractions (2004)

Assim tudo se torna abstrato. É muito interessante como essa relação, esse paradoxo inclusive – entre o abstrato/absoluto versus as relações humanas/pessoais – permeiam todo o seu trabalho. Seguindo com esse tema, você tem outra obra onde usa mapas e tenta trazer o ponto no mapa para a realidade para mostrar como essas abstrações são trazidas para as nossas vidas sem perder sua figura virtual. Assim elas existem em nossas vidas, são parte integrante de nossas vidas, mas não são físicas, podem ser até ilusões.

Os mapas também delimitam a noção de espaço, de limites, como um plano no papel com o qual nos relacionamos o tempo todo, em um nível arquitetônico de espaço, seguindo nossa intenção de organizar esse espaço. São escalas diferentes da noção de diagrama. O diagrama social é uma tentativa de organizar as relações sociais das pessoas em um mesmo espaço. Isso tem peso e intensidade. A intenção de direcionar a maneira como as pessoas vão se movimentar naquele espaço, de uma forma até manipuladora para tentar fazer as coisas funcionarem melhor. Assim direcionamos nossas vidas conforme esses diagramas.

Nesses mapas as representações vem da idéia de escala. Meu trabalho para a Bienal de São Paulo, onde tentei criar em tamanho real a verdadeira escala de um ponto no mapa, minha intenção foi utilizar dois entendimentos científicos diferentes para criar um paradoxo, uma situação impossível. Uma situação irreal mas que respeita as normas desses dois campos de entendimento que ocorrem paralelamente mas chegam a uma condição impraticável. O sistema de representação é sempre impreciso, nunca vai se conseguir chegar a uma representação verdadeira da realidade através de algum mecanismo absoluto, porque assim não seria realidade, seria representação.

Como no conto de Jorge Luis Borges, “Sobre o Rigor na Ciência”, que narra a estória de dois cartógrafos tão obcecados com a precisão que eles criaram um mapa em escala 1:1. Para se ver o ponto no mapa teria que ir exatamente ao local. Então no final não havia a necessidade da representação pois havia se tornado a realidade. O ponto matemático, que pode ser quebrado ao infinito, é apenas uma regra que acreditamos ser real e a utilizamos, mas que na verdade é imprecisa. Esses vãos entre essas compreensões, das ciências que se consideram precisas, são o que me interessa. Nossa relação com o espaço e o mundo através desses vãos que são deixados para trás.

Mesmo que esses pontos matemático não tenham uma existência real, material, assinalamos um valor e isso se torna real para nós. A mesma coisa acontece com as representações geométricas, nossa imaginação segue esses padrões e podemos vê-los em nossa mente. Como, por exemplo, a obra que mostrou na galeria Simon Lee, Linhas e Realinhamentos, onde os pregos formavam linhas que eram completadas pelas sombras dos pregos e conseqüentemente pela nossa mente que está acostumada a ver as linhas. Você se baseia nesses modelos mentais pré-estabelecidos para que as pessoas completem as obras?

In Lines and Realignments

Com certeza é muito bom quando isso acontece, é um fator que sempre me interessou. Por exemplo na obra “Três Sessões”, o trabalho não é o material, a luz, a sala, mas a percepção do espectador. A ação de construir na cabeça a divisão do espaço. É uma visão imaginada, que não existe na realidade. Essa peça é diferente das outras, foi algo novo pra mim questionar a percepção do espectador em relação ao espaço nesse sentido, uma peça que pede para que o espectador a toque para testar se é real ou não.

Eu acho muito interessante como no seu trabalho podemos passar das ilusões das representações diagramáticas ou burocráticas para as ilusões da percepção, da perspectiva.

O ilusionismo é sempre algo que aparece quando falamos desse trabalho das “Três Sessões”, mas para mim o lado da ilusão não é a parte mais importante, ainda mais porque depois da primeira vez que experimenta esse trabalho você não é mais enganado, a ilusão é quebrada e isso até se torna algo que te incomoda, então você fica entre a ilusão e a percepção. A dúvida é a coisa mais importante nesse trabalho, você duvida da sua percepção, e isso não se conclui.

Three Sections

Quando experimentei essa peça na exposição “Progressões Geométricas” na White Cube, a idéia de permitir que o espectador descubra como o truque é feito veio à minha mente e me questionei sobre as suas intenções. Você, assim como um ilusionista, tenta determinar o que o público vai ver para criar o truque, ou como os minimalistas deixa aberto para que o público participe com sua subjetividade?

Isso é algo que me questiono também. Você tem que sair do seu próprio ego e tentar ver pela perspectiva do outro. Não sabia como isso iria ocorrer para as pessoas mas podia sentir que ao construí-lo assim algumas pessoas poderiam compartilhar da mesma percepção. Não usei nenhuma fórmula científica ou artifício tecnológico para isso. É bem simples e ao mesmo tempo bem frágil, pode ser percebido de diversas maneiras e é onde está a força do trabalho, ser Possível criar um elemento no espaço que existe na mente do espectador, sem nenhuma tecnologia avançada.

Você tocou num ponto que acredito ser a grande força de seu trabalho, e isso é a essência de tudo com o que nos relacionamos, a dicotomia do pessoal e do absoluto. Esse paradoxo está presente na sua arte como na sua vida. Você pode levar as pessoas a uma percepção, um código, uma linguagem, onde todos se baseiam mas ao mesmo tempo todos a percebem e vivem de forma diferente. Então no caso da obra “Paralelos”e “Como dobrar uma bandeira”, onde utiliza materiais específicos para brincar com a percepção do espectador, testando-a ao produzir formas que parecem leves mas são pesadas, etc; Sua intenção é provocar a percepção do espectador baseado em algum código ou experiência que sabe que irá provocar?

Sim, nesses trabalhos a firmeza do material e suas contrapartidas, a idéia de elasticidade que sugere é bem interessante. Por exemplo com “Isolators”para mim se relaciona com a construção do espaço, para delimitar o espaço. Baseado nas cordas usadas para isolar os espaços nas ruas, etc. Quando o espectador chega mais perto ele percebe que essas cordas são rígidas e passam a ser uma demarcação do seu próprio espaço. O trabalho então passa a ter uma presença que se sustenta na existência de si mesmo, como uma escultura.

Voltando ao tema do universal versus pessoal, eu acho que o espectador é capaz de completar o quadrado na obra “Quadrado Expandido” como uma projeção de sua mente, mas no caso da obra I”móvel/Instável”, todos conseguem ver o balanço e equilíbrio dessa peça, mas tem uma moeda de uma libra que segura todo aquele peso, então tem uma conotação política por trás, certo?

Esse trabalho brinca com a idéia de equilíbrio e estabilidade/instabilidade. É um móbile, então sua função é o movimento, mas é estável porque toca o chão. Quando o fiz pensei sobre a instabilidade econômica que o mundo está passando. Está relacionado com o período de estabilidade econômica que o Brasil passou enquanto o resto do mundo estava em crise. Foi um crescimento baseado em fundações instáveis, como as partes de madeira do trabalho, um sistema educacional que não funciona, uma estrutura social com desigualdade, etc. Não que essa peça seja uma alegoria dessa situação. É uma obra site-specific, por isso usei a moeda de uma libra para relacionar com a Inglaterra.

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